O que protege um negócio quando tudo fica fácil de copiar?

A gente vem de um passado recente de grande fricção. Dos sprints quinzenais para lançar uma feature, por exemplo, para um momento atual em que se cria e coloca produtos em operação em poucas horas e quase sem custo. Ao mesmo tempo que é muito fácil fazer, é muito fácil perder tempo com um slop que não vai ter retenção ou distribuição mínima que garanta a continuidade ou perenidade de um negócio.

Diante disso, uma pergunta básica que tenho me feito (e muitos investidores) é: ”Como identifico produtos que ficam mais insubstituíveis quanto mais tempo eles permanecem existindo?”. O que é um produto com uma oferta que vai durar anos sendo atrativo? Como não ser atropelado por Clawdbots da vida?

Essa névoa entre a transição de ciclos tecnológicos, e do seu embaralhamento do que é de fato profundo, permanente, ruído ou hypes, a palavra moat é um tema que vale revisar nesse cenário.

Como podemos olhar para isso em empresas early-stage?

Se existe moat no early-stage, ele está na incerteza

Uma vantagem competitiva que as startups early-stage têm, mas que é circunstancial, é a velocidade. A startup, por ser enxuta e focada em apenas um problema, consegue iterar, aprender e distribuir mais rápido do que qualquer incumbente ou empresas que têm menos foco. Essa velocidade não é o moat em si, mas é o que constrói o castelo ao redor do qual o moat será cavado depois.

Então, quando penso em moats para startups early-stage, a resposta direta é que não existe algo que proteja ela, pois ela de fato ainda não tem o que ser protegido. Na verdade, a única coisa que protege uma startup early-stage é o seu próprio risco, ou a incerteza. A incerteza tira do campo de batalha empresas que temem por sua sobrevivência. Por exemplo, empresas mais estabelecidas, e que estão buscando a estabilidade, irão buscar capturar valor em lugares mais seguros ou espaços mais certos, onde há mais certeza em como gerar valor, e não arriscar em algo que pode ser catastrófico para o negócio.

Há uma analogia que gosto bastante, e que referenciei no passado, sobre a importância da velocidade para atravessar momentos de vulnerabilidade:

Esse texto traz uma leitura muito interessante sobre velocidade em momentos de alto risco, e o relaciona com quando se é uma startup. Ele traz o exemplo de um livro chamado “A pior jornada do mundo” de exploradores do Polo Sul, de 1911, onde um deles acabou morrendo e o outro, com uma equipe mais enxuta, mais rápido e eficiente, acabou bem-sucedido.

O fato é que em lugares de alto risco de sobrevivência, onde as condições são severas, como o Polo Sul, onde o frio é severo, o ar rarefeito, e sem recursos de abastecimento, há um alto risco de morte. E essas são coisas conhecidas pelos exploradores (os known unknowns). Existem diversas outros riscos desconhecidos (unknown unknowns). Além da alta incerteza, os impactos podem ser imperdoáveis. Portanto, nesses cenários, ir rápido é uma forma de reduzir o risco.

O problema é que essa proteção é temporária. No momento em que a incerteza diminui e a tese começa a se provar, uma janela de vulnerabilidade competitiva se abre. Quem tinha inteligência sobre aquele mercado vai entrar. É nesse momento que a startup precisa ter velocidade suficiente para construir vantagens competitivas reais, de mercado ou de capital, antes que os incumbentes ou concorrentes bem financiados cheguem.

A incerteza protege no começo. Depois, é responsabilidade do founder substituí-la por estrutura.

Intenção e direção para construir as vantagens competitivas

Criar código ficou barato. Mas licenças regulatórias, ativos físicos, complexidade logística, presença local, por exemplo, ainda levam anos para ser construídos. É exatamente nesses lugares onde os moats ainda vivem. O desenvolvimento de produto acelerou, mas para construir um forte posicionamento competitivo leva tempo.

Isso torna o julgamento estratégico mais importante do que nunca. É preciso saber em qual direção executar.

Recentemente, ouvi o podcast da 20VC com Gokul Rajaram, que ele traz um leque ou taxonomia de oito moats que ele está vendo hoje em IA:

  • Dados (Data moat): A posse de dados verdadeiramente proprietários aos quais ninguém mais tem acesso. Geralmente, são informações comportamentais difíceis de se recriar. Ele menciona o exemplo da funcionalidade “Discover” do Spotify, que utiliza uma década de comportamento de escuta de centenas de milhões de usuários para fazer recomendações precisas.
  • Fluxo de Trabalho (Workflow moat): Representa o quão profundamente o produto está integrado nas operações diárias e na movimentação financeira de uma empresa cliente. Uma ferramenta superficial é fraca, mas sistemas como um ERP (ex: SAP), que efetivamente rodam o negócio, geram uma dependência estrutural fortíssima e são difíceis de serem substituídos.
  • Regulatório (Regulatory moat): Baseia-se em licenças governamentais, exigências de capital e contratos de aquisição de longo prazo. Ele cita o caso da Coinbase, que passou anos acumulando licenças de transmissão de dinheiro estado por estado, tornando a conformidade regulatória uma barreira de entrada quase intransponível para novos competidores.
  • Distribuição (Distribution moat): Consiste em ter uma distribuição proprietária ou exclusiva. Rajaram exemplifica com a Intuit (QuickBooks), que treinou toda uma rede de contadores (CPAs) para usarem exclusivamente seu software, similar ao que tenho falado da Omie. Essa propriedade de canal de distribuição atua como um escudo protetor contra opções teoricamente mais modernas.
  • Ecossistema (Ecosystem moat): Ocorre quando a empresa constrói uma plataforma sobre a qual muitos terceiros desenvolvem aplicações e dependem do seu sistema. Ele menciona a Shopify é um excelente exemplo: um concorrente pode até copiar o código básico de e-commerce, mas não pode clonar os milhares de desenvolvedores terceirizados que fornecem aplicativos extras cruciais integrados à rotina de seus lojistas.
  • Rede (Network moat): Relaciona-se com a densidade e liquidez de um marketplace, como o DoorDash, ou Ifood aqui no Brasil. Enquanto uma IA poderia facilmente gerar um código para encomendar comida, ela não consegue replicar instantaneamente o acesso à rede de restaurantes parceiros, a densidade de entregadores e o histórico de reputação construído ao longo do tempo.
  • Infraestrutura Física (Physical infrastructure): Envolve coordenar “átomos” no mundo físico. Sempre que uma empresa tem ativos físicos (equipamentos, rotas, terminais físicos), ela constrói um grau de defesa que é muito difícil de ser digitalmente substituído ou eliminado por inovações em software.
  • Escala (Scale moat): Atingido quando a empresa possui um volume de operações tão grande que seus custos de produção se tornam baixos demais para serem replicados de forma viável. Exemplos incluem a Amazon com sua imensa capacidade de infraestrutura e a TSMC na fabricação de semicondutores.

O Gokul sugere que apenas um ou dois desses moats, hoje, não são suficientes para tornar uma empresa durável. Empresas que conseguem criar quatro deles, ou mais, no seu modelo de negócio estarão protegidas, para o cenário avassalador e acelerado da IA. E isso leva tempo para desenvolvê-las, portanto, as decisões estratégicas hoje são chave para que direção seguir.

Um método mais estruturado de análise de moats, é o da Ciridae, empresa que promove transformação de IA para empresas investidas por capital privado. Eles criaram um estudo super interessante, bem amplo e profundo, que avalia a durabilidade do portfólio das principais gestoras de private equity do mundo.

https://ai-transformation.fyi/ – Ciridae

Desenvolveram uma metodologia chamada AI Score, que mede em uma escala o quanto as empresas estão estruturalmente suscetíveis e protegidas à disrupção da IA. O método é interessante, principalmente para entender a ótica de investidores e mercado de capitais diante desses moats. O AI score computa quais empresas têm aspectos fortes de Durabilidade, frente ao cenário de IA – “Quão resiliente é a posição de mercado da empresa contra a disrupção por IA?” – e de Oportunidade – “Qual o potencial de salto de patamar via IA ainda não capturado por este negócio?

Esse método busca avaliar a durabilidade, medindo a robustez daquele mercado-alvo da empresa e do seu papel na cadeia de valor frente às mudanças induzidas pela IA, em cinco grandes blocos:

  • Substituibilidade de Mercado: Em que medida a IA consegue replicar o resultado que o mercado paga (ajustado por qualidade) reduzindo o Willingness To Pay?
    • O teste do “faça você mesmo”: O cliente consegue 80% desse resultado apenas com prompts diretos a uma ferramenta de IA? Se sim, o score é abaixo da mediana. Se o resultado exige presença física, construção ou entrega presencial (acima de mediana)
  • Migração de Profit Pool: A IA desloca a captura de valor desta camada de mercado para camadas adjacentes: plataformas, detentores de dados, sistemas de registro, distribuidores, agregadores nativos de IA?
    • O teste do CLTV em 5 anos: Daqui a 5 anos, os clientes da empresa ainda pagarão para ela, ou pagarão para uma plataforma ou agregador que absorveu essa função? Se a resposta for “a plataforma”, abaixo da mediana.
  • Barreira de Entrada: Quão difícil é para um competidor nativo de IA entrar neste mercado? Considere barreiras regulatórias, certificações de segurança, requisitos de capex e barreiras de confiança.
    • O teste da startup de IA: Uma startup de IA bem financiada conseguiria replicar este negócio em 2 anos? Se sim, abaixo da mediana. Como no exemplo do Gokul nesse texto, conte as camadas de proteção.
  • Exposição à Desintermediação: Agentes ou plataformas de IA conseguem contornar o papel da empresa — como broker, coordenador ou camada manual intermediária — conectando clientes diretamente aos resultados?
    • O teste do agente de IA: Se um agente de IA pudesse reservar, organizar ou coordenar em nome do cliente final, a empresa ainda estaria no fluxo? Se o agente consegue ignorar a empresa completamente, menor que a mediana.
  • Switching costs: Uma vez que o cliente está usando esta empresa, quão difícil é sair? Considere integração ao fluxo de trabalho, lock-in de dados, custos de retreinamento e dependências de ecossistema.
    • O teste de troca: Se um concorrente lançasse amanhã com IA superior, quanto tempo levaria para os clientes migrarem? Menos de 6 meses = menor que a mediana. Mais de 2 anos = maior que a mediana. Dados proprietários como lock-in pertencem aqui; dados como ativo de inteligência de domínio pertencem a uma oportunidade ou vantagem competitiva, e não proteção.

Ok, e aí?

Hoje, quando olho para decks de investimento, vejo a tradicional estrutura (problema, solução, mercado, time etc…) que busca endereçar todos os pontos, mas hoje é muito importante articular a construção do moat. Geralmente, isso se dá a partir de uma boa estratégia, que alimenta o flywheel da empresa. O flywheel gera vantagem competitiva, e a vantagem competitiva, sustentada no tempo, cria o moat.

Tenho sugerido que founders criem um slide específico para isso, ao descrever a arquitetura dos loops que sustentam a estratégia. Qual é o flywheel? O que se torna mais difícil de replicar a cada ciclo? Quais moats estão sendo construídos em paralelo?

No fim do dia, eu vejo que um moat só é comprovado a partir de:

  • Competitive win-rate: Quantos deals ganha
  • Pricing Power(Porter): o poder de comandar preços e expandir margem bruta ao longo do tempo. E,
  • Alto ROIC (Retorno sobre o Capital Investido)
  • À prova de ataques: Se um incumbente ou uma startup altamente financiada é atacada e permanece, ela tem um moat.

A ironia do momento atual é que nunca foi tão fácil construir um produto e nunca tão difícil construir um negócio. A velocidade resolve o primeiro. A intenção e a arquitetura da estratégia, direção e tempo resolvem o segundo, com a narrativa. Moat é o resultado de grandes apostas feitas cedo, cujos efeitos só aparecem tarde.

Diferenciando a Mensagem para Clientes e Investidores

Talvez o maior ‘ponto cego’ de CEOs e cofounders de startups que buscam a trilha do VC seja ignorar ou se confundir que, na prática, eles gerenciam dois produtos distintos. O primeiro é o software ou serviço entregue ao cliente; o segundo é a própria empresa, a história do ativo financeiro (equity) que o investidor compra. A armadilha comum é tentar vender este segundo produto usando mesmas histórias, colaterais e linguagens do primeiro. Embora a premissa de venda seja a mesma (clareza e valor), a linguagem e o escopo necessários para convencer um investidor exigem uma tradução completa da sua narrativa.

Apesar de audiências distintas, a construção de qualquer pitch parte da mesma premissa: a clareza da promessa central e a percepção de valor. Para o investidor, no entanto, essa narrativa precisa expandir o escopo e sair do posicionamento estrito do produto para uma visão sistêmica. É preciso articular em uma história como o time, oportunidade, categoria e estratégia se integram para capturar valor no longo prazo. Para quem está construindo um negócio grande é preciso expandir a visão, e ter um posicionamento da empresa para o mercado de VC.

Assim como posicionamento para o cliente, é preciso fazer apostas na mensagem para suportar a percepção da audiência. É preciso se comprometer com hipóteses que construam o posicionamento. Aqui sugiro um  exemplo usando o mesmo framework de posicionamento de produto para trilha de VC:

  • Alternativas: Quais são outros players similares na trilha de VC?
  • Atributos únicos: E por que a tese da sua empresa é a mais relevante para criar um líder de categoria?
  • Valor (para o investidor): Qual o potencial de valor de mercado que sua oportunidade pode gerar?
  • Cliente/Investidor que se importa com isso: Qual investidor busca essa tese de investimento e apetite de risco/retorno?

Além da mensagem, a linguagem é diferente. A linguagem do mercado financeiro é mais pragmática, e baseada em indicadores de sucesso financeiro (margens, receita, churn (negativo) etc..), liderança e domínio de um mercado(market share, TAM) e de valor de mercado (enterprise value, múltiplos de valuation) para gerar momentum, urgência ou emoção (como FOMO – fear of missing out).

O processo de construção é similar, mas a linguagem é diferente. Por exemplo, vou compartilhar algumas notas aqui que fui refletindo da diferença entre o posicionamento para os clientes e para os investidores:

Dicas práticas:

Geralmente, os especialistas em posicionamento para o VC-track são investment bankers, consultores e os próprios VCs. Recomendo usá-los como suporte na construção da tese, posicionamento e linguagem para preparação do roadshow. Outro trabalho prático é estudar e fazer a reengenharia da comunicação dos investidores ou VCs. Estude materiais como os memos de investimentos (exemplo Bessemer) e teses de investimento (exemplo USV) para entender linguagem, expectativas e perspectivas.

Exemplo de um e-mail interno do time da Khosla Ventures.

Por fim, importante, é preciso se preparar com muito embasamento e conhecimento profundo do mercado, investidores costumam ter boa profundidade e conhecimento, e tendem a identificar quem está blefando. Junto a isso, é importante ter fundamentada a estratégia de futuro de forma clara para discutir com o mercado financeiro, como um prospecto de IPO. E, claro, a autenticidade é muito importante e pode te ajudar em toda essa narrativa.

Inflexão é quando o Crescimento alcança a Narrativa

Como investidores estamos sempre buscando oportunidade de Inflexão, que é quando a Execução alcança a Narrativa.

Esse é um post inicialmente escrito na minha newsletter de edição DFBR #51 com notas de um texto que li sobre narrativas para empreendedores. Nesse texto destilo aqui minhas reflexões e insights sobre o assunto:

Acredito que já é convenção que é papel do CEOs transmitir o progresso e as promessas de uma startup. Não só para investidores, mas para todo mundo, e essa amplificação da narrativa tem cada vez mais importância no ambiente de Venture Capital hoje em dia.

Mas, começando sobre o processo de captação de investimento, o autor segrega como existindo três tipos de narrativa de pitch em um processo de fundraising, e o que elas comunicam:

  1. Narrativa: o que a inflexão poderá ser
  2. Inflexão: sobre os segredos descobertos
  3. Tração: sobre o passado e capacidade de execução, mas que ainda falta alguma história sobre o futuro.

É cada vez mais claro que a narrativa tem um papel extremamente relevante no processo de construção de empresa. Em mercados incertos como de Venture Capital, a narrativa tem mais relevância e sentido. É difícil comprar a narrativa em mercados extremamente tradicionais ou ultrapassados.

O autor coloca de uma forma bem interessante a relação da narrativa com os múltiplos de valuation. Empresas com a mesma receita tem múltiplos valuation sobre receita tão diferentes. Trata-se, muitas vezes, da narrativa do que aquilo poderá se transformar no futuro, geralmente em termos de performance.

Essas novas narrativas geralmente giram em torno de aspectos como: a 1) ampla dinâmica do potencial de resultados do produto, 2) o potencial de LTV futuro, 3) novas avenidas de crescimento e 4) “plataformização” e efeitos de rede, e outros ‘loops’ de dominação de mercados. A narrativa que vejo que mais funcionam estão conectadas com visão de mercado e estratégia de produto.

Ainda nessa linha de múltiplos e valuation, o autor sugere uma comparação bem interessante da alavancagem da narrativa como relação de Preço/Lucro(Price/Earning ou P/E) de uma empresa. Então, nessa perspectiva, investidor avalia o valuation(preço) da empresa em relação ao seu lucro. Uma empresa com um múltiplo de P/E maior quer dizer que a empresa terá um crescimento e lucro maior no longo prazo para encontrar a atual expectativa lá na frente ou então que, a partir da entrega do esperado, renove narrativa e mantenha o múltiplo alto. Para isso, ela precisará demonstrar um bom ROIC, ou seja, que está alocando o capital de forma que esteja trazendo bons retornos.

No longo prazo a expansão de múltiplo se torna menos relevante para a jornada de geração de valor de um negócio. A narrativa no primeiro momento é capaz de gerar valor para o negócio ao expandir os múltiplos de valuation. Ela atua como forma de vender o sonho ou a opção do investimento que terá retorno no longo prazo. Porém, para o médio e longo é preciso demonstrar crescimento e margens acima da média. (Your Growth Strategy Depends on Your Starting Point – BCG)

Tesla e Nubank, para mim, são empresas de narrativas excepcionais nas suas épocas, acompanhada de uma execução que atende muito bem essa alta expectativa, com forte crescimento que alcançam essas expectativas, por isso seus múltiplos seguem altos e renovados. Com isso, também, ao longo do caminho a confiança na execução e no time é algo que cresce exponencialmente. Do outro lado extremo e contrário, empresas que tiveram grandes fraudes e corrupção, se torna muito difícil reverter a percepção, o que é apresentada nos múltiplos.

Sobre execução, eu gosto muito da definição que o Eric Santos, CEO e Cofundador da RD, cita que não significa você apenas fazer, mas sim comunicar que o padrão de entrega e de execução para garantir o que foi prometido. E, se todos entenderam, poderão esperar por aquilo.

Essa relação da narrativa em relação à expectativa é bem interessante, não só apenas para múltiplos de mercado, mas também para recrutar talentos, aproximação de clientes e coordenação interna.

Capital é um recurso para reduzir o risco das empresas e criar uma vantagem competitiva. Quando há grande liquidez e oferta de recursos de Venture Capital, esse tipo de recurso se torna menos escasso que outros. Por exemplo, talentos e desenvolvedores brilhantes, ou adquiri clientes, tem sido algo mais difícil, e maiores bloqueadores do sucesso das empresas, que captar investimentos.

Então, a narrativa hoje deve ser aplicada, e talvez focada, para outras atividades que envolvem alto risco para cumprir as expectativas. É um recurso de extrema importância para reduzir o risco de uma empresa, e não apenas um artefato para múltiplo de valuation.

Lembrando, narrativa é o papel o CEO, e ele tem que usar a seu favor, de forma holística deve utilizá-la como alavanca de reduzir os riscos da empresa seja pessoas, marca, vendas, capital etc…

Esse texto é cheio de insights sobre o assunto. Link do artigo.

Para aprofundar, recomendo ler:

Criando o seu Mini Prospecto de IPO para articular o potencial de longo prazo

Muitas vezes, no early-stage, é fácil visualizar o potencial da oportunidade para alcançar o próximo estágio, como do Seed ao Series-A. A empresa tem tração, PMF, um GTM que demonstra eficiência e uma rodada razoável. No entanto, pode ser difícil enxergar como essa empresa pode dominar uma categoria e oferecer um retorno assimétrico. Para um fundo VC institucional, que busca a dinâmica de retorno pela Lei de Potência, é essencial construir uma visão e narrativa claras de uma companhia capaz de avançar além do Series-B e Series-C.

Esse é um rascunho que uso para direcionar e colaborar em conversas com fundadores, ajudando-os a articular uma visão ampla do futuro dos seus negócios. O objetivo é apoiar na construção de um posicionamento e narrativa para uma empresa com potencial de atingir $100 milhões ou mais de receita, ou valor de mercado superior a $1 bilhão em cerca de sete anos. Trata-se de um exercício para entender melhor o potencial e a atratividade de empresas que buscam trilhar o caminho do Venture Capital ou do mercado de capitais como um todo, indo além do curto e médio prazo.

Gosto bastante da ideia desse gráfico sobre o que é PMF, e o que importa para o VC. Além de um histórico sólido de alto uso e recorrência do produto, buscamos narrativas estratégicas que conduzam a uma visão ampla.

Eu vi o playbook da Avra, uma aceleradora especializada em apoiar superfounders em estágios mais maduros, cujo sexto passo sugere a criação de um Mini S-1 (ou mini-prospecto de IPO) para detalhar o posicionamento futuro da empresa rumo ao mercado de capitais. O S-1 é um documento central de análise que reúne todas as informações sobre o potencial da oportunidade de maneira transparente e detalhada.

Este é um exercício fundamental para construir e embasar a narrativa e o posicionamento da empresa em um panorama corporativo mais amplo, onde estão os grandes negócios. Por isso, exige reflexão profunda, tempo e estudo.

É preciso sair do conceito inicial de PMF de nicho e expandir a visão para além do wedge ou ponto de entrada. O objetivo é articular claramente o que o produto será no longo prazo, quando atingir maturidade e relevância na sua categoria. Da mesma forma ocorre com o TAM: no jogo do Venture Capital, importa menos o TAM inicial e mais o TAM na saída (o TAM no momento do exit).

Não se trata mais apenas de refletir sobre a missão, mas de pensar o futuro da indústria e o potencial de receita a ser capturada quando essa missão for realizada. É importante criar cenários onde a empresa possa atingir uma avaliação de R$2 bilhões, R$5 bilhões ou R$10 bilhões.

O “santo graal” da trilha do VC, capaz de gerar retornos reais para todos os stakeholders, é o IPO. Uma empresa IPO-ready, fora de uma bolha especulativa, exige (segundo estudos):

  • Market Cap superior a $1,5 bilhão
  • Receita LTM acima de $200 milhões com crescimento de 30%-40% ao ano
  • Lucratividade no breakeven por ao menos 18 meses
  • Competição com posicionamento como top 3 na categoria
  • Um claro “segundo ato”: demonstração de novos produtos ou estratégias de expansão com boas evidências

Esses parâmetros ajudam a definir claramente o alvo do VC ao ouvir uma narrativa. Podemos também aprender com casos práticos de sucesso, observando como empresas líderes apresentaram suas narrativas nos seus S-1 durante o IPO. As páginas iniciais desses documentos geralmente trazem sumários das oportunidades, gráficos e diagramas que destacam os diferenciais competitivos.

Alguns pontos para investigar e refletir sobre o seu potencial futuro e para construir sua narrativa:

Sugestões de exercícios para construir sua visão de futuro:

  1. Panorama da Indústria e da Categoria
    • Qual é a definição de mercado? Como é definida esta categoria de produto? Quais são os insurgentes, incumbentes e gorilas? Panorama do setor: market map, value chain, tamanho atual e potencial)
    • Right to play / win: Quais os requisitos mínimos para competir (compliance, features, serviço)? / Quais diferenciais para conquistar o mercado (execução, tecnologia, efeitos de rede)?
  2. Posicionamento e Jornada do Cliente, e Vantagem Competitivas
    • Qual a jornada do cliente e qual o roadmap para avançar no domínio da plataforma? (Mapas de Ecossistema ou Plataformas ajudam; exemplo Salesforce).
    • Nome da categoria que pretende liderar e qual a tese do posicionamento em um cenário corporativo maduro.
    • Roadmap e o possível “segundo e terceiro ato“: novos produtos ou expansão internacional.
    • Flywheel de crescimento: Ciclo virtuoso que reforça sua vantagem competitiva (dados, marca, comunidade, escala).
    • Quais são as tendências e inflexões favoráveis e ameaçadoras? Seu posicionamento diante dessas tendências?
  3. Potencial, Comparáveis de Valor e Movimentações Estratégicas do Setor
    • Avaliação de empresas comparáveis: múltiplos e KPIs relevantes.
    • Dinâmica de M&A e IPOs recentes no setor.
    • Expectativas do mercado sobre “novos atos” estratégicos (novos produtos, expansão internacional).
  4. Exercício de visão: Headlines e Narrativa Pública (Créditos pelo exercício à Juliana Baranowski)
    • Escrever um parágrafo com os press releases para descrever o racional estratégico de rodadas futuras, por exemplo:
    • IPO: Qual será o headline?
    • Series-B: Como a imprensa destacará?

A coleta de informações de mercado, associada a análises profundas, é fundamental para compreender o jogo e identificar oportunidades estratégicas claras. Além dos S-1 dos líderes setoriais, conversas com investment bankers e reports das maiores transações também são importantes.

Por fim, revise seu pitch e busque feedback da sua narrativa com diferentes audiências ao longo da jornada de financiamento até o IPO:

  • Venture Capital (VC)
    • Growth Equity
      • Buy-out / Private Equity
        • Gestores de Public Equities
          • Investment Bankers

O Mini S-1 funciona bem para empresas pós o PMF e amplia a visão de futuro, tirando fundadores do cotidiano e obrigando-os a realizar diligências estratégicas, refinando lógica e narrativa, e preparando-se para demonstrar um futuro promissor aos investidores.