Os Melhores Livros que Li em 2025

Esse ano eu li completos 12 livros, se não estou perdendo as contas, e outras dezenas que comecei e descontinuei.

Agora, nesse fim de ano, refletindo nos livros, quero compartilhar e comentar dois que as ideias mais me marcaram, e acredito que os leitores aqui vão gostar também.

Foram eles:

The 15 Commitments of Conscious Leadership (Link Amazon)

Por que eu gostei?

É um dos melhores livros que já li sobre liderança, pois traz bastante do lado mais introspectivo da liderança, de estar presente (mindfulness). O livro traz em 15 compromissos como se tornar um líder mais consciente e intencional. O próprio autor confirma que nenhum dos compromissos foi desenvolvido por eles. Ele apenas consolidou, clarificou e aplicou esses conceitos de outros estudiosos e autores, fazendo sentido para aplicação no dia a dia de um líder.

Alguns dos capítulos e compromissos que mais me fizeram pensar e internalizar para aplicar no dia a dia são:

  • 2) Aprendendo através da curiosidade (vs. Querer estar certo): Neste compromisso, os autores explicam que a raiz de todo drama na liderança é a necessidade biológica e egóica de ‘ter razão’, uma postura defensiva que o cérebro confunde com sobrevivência. O ponto central é que a verdadeira evolução acontece quando substituímos essa rigidez pela curiosidade genuína, permitindo-nos escutar e nos conectar de forma mais vulnerável. Essa postura é extremamente relevante no ambiente de constante aprendizados e testagem como de VC e Startups. Vejo interações com founders que, ao receberem uma indagação ou contraponto, reagem instintivamente tentando provar o ponto que estão certos, às vezes até com rispidez, em vez de buscarem na curiosidade se conectar melhor e entender a nova perspectiva. Apesar do nosso usual contexto de se apresentar (pitch) e se vender, ir do ‘provar’ para o ‘aprender’, eliminaríamos o combate desnecessário e ganhariam insights valiosos que nos bloqueiam.
  • 4) Franqueza Radical (Speaking Candidly (vs. Segurar a verdade). Ser radicalmente honesto as vezes desafia a noção comum de que ser um bom parceiro é evitar o desconforto. Nesse capítulo, os autores apresentam que ser cândido reside na interseção entre verdade, abertura e autoconsciência, comunicando o que é ‘incontestável’ (pensamentos, sentimentos e sensações) sem projetar julgamentos no outro. Para mim, em VC, isso é o que define realmente o conceito de ser Founder Friendly: não é sobre dizer o que o founder quer ouvir para manter a harmonia, mas ter a coragem de ter as conversas difíceis e necessárias, seja sobre a necessidade de um reset de valuation, a necessidade de venda ou o fechamento da empresa. A verdade tem mais valor no longo prazo que o conforto. A aplicação prática não é estremecer ou abalar, mas sim ‘dizer a verdade da forma mais amorosa possível’. 
  • 8) Atuando na Zona de Genialidade (vs. Zona de Competência/Excelência). O conceito de ‘Zona de Genialidade’ propõe que os líderes devem migrar das atividades em que são excelentes (que executam bem, mas que consomem energia) para aquelas em que possuem um dom único e o tempo parece desaparecer. Essa distinção, aprofundada no ótimo livro The Big Leap de Gay Hendricks, é vital para a sustentabilidade da liderança, pois permanecer na ‘Zona de Excelência’ é uma armadilha que leva ao burnout. Tenho meditado no tema nesse último ano, buscando arquitetar minha vida para priorizar onde mais gosto e sou melhor. É como Naval Ravikant diz, encontrar “o que parece divertido para você, mas que para os outros parece trabalho”. Com isso, se torna muito mais fácil entrar em estado de Flow, não só o bem-estar aumenta, mas a qualidade e o impacto das minhas entregas se tornam exponencialmente maiores do que quando estou apenas ‘me esforçando’.

Why Greatness Cannot Be Planned – The Myth of the Objetive (de Kenneth Stanley e Joel Lehman) – (Link da Amazon)

Por que eu gostei?

Esse é um livro sobre inovação, de 2016, que provoca que, se formos levados pelos nossos interesses e ideias que consideramos interessante, sem seguir um objetivo estabelecido, é a forma fazer algo novo e grande de fato. Isso pode parecer meio bullshit de coach inspiracional, mas acho que tem uma mensagem importante e profunda de buscar a autenticidade e o “interessância” (Interestingness) como guia que nós temos.

Infelizmente, a cultura empresarial exige o contrário desses conceitos. Mas tive alguns poucos líderes com esse mindset, e consigo relacionar essa ideia com alguns projetos na minha carreira. Sempre que seguimos a zona de genialidade(como mencionada no livro anterior) e interesse dos membros da equipe, e a curiosidade, sem um objetivo claro do início, consigo recordar pontos de chegada muito interessantes e relevantes para esses projetos. 

O autor coloca que o progresso em inovação é geralmente feito saltando de uma ideia interessante para outra. É preciso colecionar esses degraus (stepping stones, como o autor coloca) para encontrar o grande tesouro. Esses degraus que levam a uma inovação ou algo grande, não se parecem com a invenção final. Existem milhares de exemplos claros, como, mais atual, a própria NVIDIA, que não tinha interesse em criar cérebros artificiais poderosos com GPU, o objetivo nos anos 90 era fazer jogos de tiro e fantasia parecerem mais realistas, com a demanda de gráficos melhor para jogar Doom, Quake ou Call of Duty. Na década passada, pesquisadores de IA descobriram, quase por acaso, que a matemática necessária para renderizar gráficos 3D (multiplicação de matrizes) é exatamente a mesma matemática necessária para treinar Redes Neurais Profundas (Deep Learning).

É uma boa provocação porque a cultura empresarial, e até mesmo o financiamento científico e o currículo escolar, exige o contrário.

Algumas lições e reflexões para o dia a dia de VC e Startups:

  • No ambiente de VC, onde devemos buscar retornos assimétricos e oportunidades que serão outliers em dez anos, olhando para trás. Queremos encontrar a oportunidade perfeita, mas o que mais tem são anomalias, imperfeições e arbitragens. Está fora do consenso e, portanto, às vezes é difícil encontrar uma explicação, quando não parecemos um idiota ou maluco. Então é preciso estimular o desacordo, e nos comprometermos (disagree and commit). O confronto com a ambiguidade, não a orientação para o planejamento, é um grande ativo no early-stage.
  • Em um mundo de criação cada vez mais voltada para as medianas e conteúdos sintéticos, o que nos faz estranhos, esquisitos e únicos é nosso diferencial competitivo.
  • Para trabalhos criativos e novos, não é sobre planejar o destino, mas planejar como será a exploração. Confiar na curiosidade e no nosso gosto para nos guiar até lá.

Quando a Rota Muda e Deixa de Fazer Sentido para VCs

Estive em um evento com empreendedores falando da tradicional rota de Venture Capital que todo investidor institucional busca, e a dinâmica da Lei de Potência.

Depois das minhas falas, surgiu uma pergunta muito boa de uma empreendedora: O que acontece se o founder, por qualquer questão, seja mercadológica ou estrutural, precisa tomar a decisão de mudar da rota de VC de uma empresa de U$1bn+ de valor de mercado, para uma empresa de ~R$ 200mn?

Foi uma ótima pergunta porque essa é uma discussão da pauta entre founders vs. VC, e uma saída de mais de R$ 200 milhões tende a ser acima da média para o Brasil – porém abaixo do Power Law que o VC busca. Mas, às vezes, não é tão simples, e, de fato, saídas de empresa de tamanho middle-market são onde os interesses e incentivos em VC se desalinham e é preciso saber lidar ou dirigir o barco.

Então, minha resposta foi a seguinte:

Levantar capital é uma das decisões irreversíveis em uma Startup. O investidor, ao fazer o investimento na sua startup, tem a convicção, e a expectativa, de que aquela oportunidade possa atravessar os desafios e trazer o retorno assimétrico que ele espera, tendo o alinhamento do founder de buscar esse (alto) potencial e jornada de VC. Para o investidor, não há problema em ter 80% do seu portfólio em write-offs e empresas que falharam, pois isso faz parte da matemática do VC. Mas, no investimento, deve estar certo, e alinhado com founders, que aquela oportunidade tem o potencial que espera. 

É aqui que mora a grande assimetria: o fundo possui uma estratégia de diversificação, apostar em 15 ou mais empresas, e tolerar o fracasso individual desde que existam os ‘home-runs‘ que ultrapassem amplamente as perdas. Já a fundadora não tem diversificação; sua aposta de vida, naquele momento, é neste único ativo. Muitas vezes, para ela, uma saída de R$ 200 milhões, com menor risco, seria transformacional, enquanto para o VC esse retorno não será o fund returner que buscam.

Não é incomum que a startup não consiga chegar ao próximo estágio e assegurar capital e crescimento, por qualquer motivo, ou então enfrente desafios e falta de energia de cofounders pois entendem que a oportunidade não tem o potencial esperado, entre outros fatores. Importante lembrar que a mudança de rota é comum em uma startup, e a exceção é o investidor VC encontrar um outlier. Mas a questão é que buscar uma saída menor, que multiplicará no máximo por um par de vezes o capital do fundo, é algo que não sustenta o modelo do fundo VC tradicional. É preciso compreender isso e realinhar as expectativas e o sentido.

Porém, neste processo, a decisão de cancelar a escalada até o topo do everest deve ser tomada de forma honesta ao contexto do desafio e com transparência para os investidores para evitar qualquer reação que traga conflito ou desarmonia. É algo complexo de lidar, mas também não é algo totalmente binário ou novo para o investidor experiente, que, mais do que ninguém, conhece modelos mentais e caminhos para ajudar a salvar o valor que existe.

(Ao final do texto, eu sugiro algumas formas para apoiar o alinhamento de riscos ao longo da jornada.)

Do contrário, o desalinhamento virará mais uma tensão a se gerenciar em todo o ciclo da empresa, um lugar onde não recomendo estar.

O Desalinhamento na Rota de VC

Eu li recentemente esse artigo que disserta de forma bem completa sobre o (des)alinhamento de VC e founders, principalmente na dinâmica de fundos muito grandes e investidores menores.

Alguns pontos que o autor menciona e que vale trazer e comentar aqui:

  • É importante entender que trazer um grande fundo, que investe no early-stage e um grande cheque, apesar do dinheiro e da boa reputação e marca do fundo que é capaz de reduzir o risco, também aumenta o risco por outro lado para o negócio, por dois motivos: 1) o ponto mais claro é que o cheque maior, e o valuation maior, trará uma barra maior, como  pelo liquidation preference, e de desafio de graduação a ser comprovada pela robustez do negócio, para fazer jus a tal valuation. Talvez um pouco contraintuitivo, o outro ponto 2) é que esses fundos maiores, com reservas para follow-ons, buscam reinvestir nas melhores em rodadas subsequentes de seu portfólio, porém só vão investir em novas rodadas se a empresa for a top 20%-30% das empresas do portfólio. Caso a investida não esteja nesse hall, o fundo poderá enviar uma má sinalização para o mercado ao não investir. Esse é o grande risco.
  • Do lado de fundo menores, esses têm menos skin in the game e conseguem ajudar menos (com rodadas follow-on, principalmente) na trilha de VC.
  • Mas, o mais relevante para o fundador, e pior que desalinhamento, é dar o controle para o investidor desalinhado. Como o autor menciona, deixar a decisão de exit na mão de investidores ou minoritários é complicado e doloroso.

Olhando o tamanho do fundo, dentro da lei de potência e fundreturners, é possível entender a estratégia do investidor. Eu escrevi um pouco sobre esse assunto (em “Desalinhamento na trilha de VC”) há alguns anos:

  • “Esse desafio fica bem claro quando a gente faz a conta. Para o investimento retornar um fundo de tamanho de $100 milhões, pensando que no exit o fundo deterá cerca de 5%, a empresa vendida deverá ser avaliada em mais de U$ 2 bilhões. Em um período de 10 anos, essa empresa precisará de um faturamento de ao menos $200mn por ano.
    Isso se intensifica ainda mais em uma geografia de Brasil em que a mediana de exits nos últimos anos foi de cerca de U$137 milhões e transações de mais de $1 bilhão são poucas. Vale mencionar que uma tendência positiva é que o tamanho médio de exits no Brasil tem crescido.”

Diferentes tamanhos e perfis de investidores que estão no captable têm expectativas e interesses distintos. Em uma jornada de VC de uma startup, com múltiplas rodadas de captação, ela terá no conselho ou quadro de investidores da empresa diferentes preferências, direitos e expectativas relacionadas ao exit, por exemplo. 

Mitigando o desalinhamento

O que pode ajudar a mitigar o desalinhamento entre founder e VC e entre VCs dentro da jornada da empresa:

  • Entender os timings e expectativas de saídas, e planejar a jornada de funding pensando nisso. Por exemplo, pensar em saídas early-exit pode ser a melhor forma de capturar valor para os investidores, dadas as circunstâncias, e oferecer secundárias de investidores em rodadas subsequentes.
  • Para founders tendenciosos a ter uma exit para garantir sua liquidez, é possível pensar em secundárias para os founders e equipe como forma de reduzir esse risco e alinhar as expectativas de geração de valor. Não precisa esperar até um exit para ter alguma liquidez, se a empresa estiver numa boa trajetória, principalmente em rodadas B em diante, é comum ver secundárias de founders.

Uma boa gestão do board de investidores, bons advogados e advisors, e bons investidores tendem a facilitar.

Diferenciando a Mensagem para Clientes e Investidores

Talvez o maior ‘ponto cego’ de CEOs e cofounders de startups que buscam a trilha do VC seja ignorar ou se confundir que, na prática, eles gerenciam dois produtos distintos. O primeiro é o software ou serviço entregue ao cliente; o segundo é a própria empresa, a história do ativo financeiro (equity) que o investidor compra. A armadilha comum é tentar vender este segundo produto usando mesmas histórias, colaterais e linguagens do primeiro. Embora a premissa de venda seja a mesma (clareza e valor), a linguagem e o escopo necessários para convencer um investidor exigem uma tradução completa da sua narrativa.

Apesar de audiências distintas, a construção de qualquer pitch parte da mesma premissa: a clareza da promessa central e a percepção de valor. Para o investidor, no entanto, essa narrativa precisa expandir o escopo e sair do posicionamento estrito do produto para uma visão sistêmica. É preciso articular em uma história como o time, oportunidade, categoria e estratégia se integram para capturar valor no longo prazo. Para quem está construindo um negócio grande é preciso expandir a visão, e ter um posicionamento da empresa para o mercado de VC.

Assim como posicionamento para o cliente, é preciso fazer apostas na mensagem para suportar a percepção da audiência. É preciso se comprometer com hipóteses que construam o posicionamento. Aqui sugiro um  exemplo usando o mesmo framework de posicionamento de produto para trilha de VC:

  • Alternativas: Quais são outros players similares na trilha de VC?
  • Atributos únicos: E por que a tese da sua empresa é a mais relevante para criar um líder de categoria?
  • Valor (para o investidor): Qual o potencial de valor de mercado que sua oportunidade pode gerar?
  • Cliente/Investidor que se importa com isso: Qual investidor busca essa tese de investimento e apetite de risco/retorno?

Além da mensagem, a linguagem é diferente. A linguagem do mercado financeiro é mais pragmática, e baseada em indicadores de sucesso financeiro (margens, receita, churn (negativo) etc..), liderança e domínio de um mercado(market share, TAM) e de valor de mercado (enterprise value, múltiplos de valuation) para gerar momentum, urgência ou emoção (como FOMO – fear of missing out).

O processo de construção é similar, mas a linguagem é diferente. Por exemplo, vou compartilhar algumas notas aqui que fui refletindo da diferença entre o posicionamento para os clientes e para os investidores:

Dicas práticas:

Geralmente, os especialistas em posicionamento para o VC-track são investment bankers, consultores e os próprios VCs. Recomendo usá-los como suporte na construção da tese, posicionamento e linguagem para preparação do roadshow. Outro trabalho prático é estudar e fazer a reengenharia da comunicação dos investidores ou VCs. Estude materiais como os memos de investimentos (exemplo Bessemer) e teses de investimento (exemplo USV) para entender linguagem, expectativas e perspectivas.

Exemplo de um e-mail interno do time da Khosla Ventures.

Por fim, importante, é preciso se preparar com muito embasamento e conhecimento profundo do mercado, investidores costumam ter boa profundidade e conhecimento, e tendem a identificar quem está blefando. Junto a isso, é importante ter fundamentada a estratégia de futuro de forma clara para discutir com o mercado financeiro, como um prospecto de IPO. E, claro, a autenticidade é muito importante e pode te ajudar em toda essa narrativa.